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18 de Outubro de 2017

Lula Condenado: Como fica a questão de sua elegibilidade? Ainda poderá candidatar-se a Presidência?

Leonardo Sarmento, Professor de Direito do Ensino Superior
Publicado por Leonardo Sarmento
há 3 meses

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A partir da condenação de Luiz Inácio Lula da Silva, “Lula”, em 1ª instância faz-se ainda mais palpável os termos que já articulamos a respeito da questão da elegibilidade ou inelegibilidade de Lula. Nesta senda, que nos propusemos a revelar esta questão fulcral e irmos além aduzindo possibilidades fáticas como a confirmação de sua condenação pelo competente órgão de 2ª instância. Quais as possíveis consequências? Como deverá o STF perceber a questão? É destas e de questões correlatas que passamos a discorrer.

Questões que parecem sofrer de parcial carência cognitiva, pouco ou nada articuladas pelos estudiosos do direito, questões nebulosas, que atormentam o imaginário de boa parcela da sociedade, dos leigos aos profissionais do direito, e que por uma senda integrativa resolvemos enfrentá-las de maneira inteligível, antecipando-nos ao pronunciamento que se fará imperioso do Supremo Tribunal Federal, que de sorte nos trará a decisão final que regulará boa parte do complexo questionado no presente.

Um candidato a presidência da República, que seja réu em primeira instância, pode disputar pleito eleitoral e entrar em exercício caso eleito? E se restar condenado em 1ª instância? E para a hipótese de restar condenado também em 2ª instância? Alguma circunstância fática poderá torná-lo inelegível? Estas são algumas das perguntas que iremos responder tomando como exemplo a bradada candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – vulgo Lula. Ao final trataremos do ruído de uma PEC prevendo eleições diretas ainda para 2017.

Importante notar, que utilizaremos do exemplo “Lula” que nos afigura a situação mais palatável de enfrentamento real, pois já é réu e parece estar em franca “campanha política”, mas por óbvio o exemplo não se esgota em “Lula” podendo ser ampliado para qualquer candidato à Presidência da República que guarde situação análoga por ocasião do pleito presidencial.

Legislação aplicável:

A LC 64/90, que estabelece, de acordo com o art. 14, § 9º da Constituição Federal, casos de inelegibilidade, prazos de cessação, e determina outras providências, modificada pela lei da Ficha Limpa, LC 135/2010.

Assim, o art. 2º da LC 135/2019 alterou o art. da LC 64/90, e no ponto que nos interessa:

Art. 1º São inelegíveis:

I - para qualquer cargo:

(...)

e) os que forem condenados, em decisão transitada em julgado ou proferida por órgão judicial colegiado, desde a condenação até o transcurso do prazo de 8 (oito) anos após o cumprimento da pena, pelos crimes: (Redação dada pela Lei Complementar nº 135, de 2010).

1. Contra a economia popular, a fé pública, a administração pública e o patrimônio público; (Incluído pela Lei Complementar nº 135, de 2010);

(...)

6. De lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores;

10. Praticados por organização criminosa, quadrilha ou bando;

h) os detentores de cargo na administração pública direta, indireta ou fundacional, que beneficiarem a si ou a terceiros, pelo abuso do poder econômico ou político, que forem condenados em decisão transitada em julgado ou proferida por órgão judicial colegiado, para a eleição na qual concorrem ou tenham sido diplomados, bem como para as que se realizarem nos 8 (oito) anos seguintes;

Art. 2º Compete à Justiça Eleitoral conhecer e decidir as argüições de inelegibilidade.

Parágrafo único. A argüição de inelegibilidade será feita perante:

I - o Tribunal Superior Eleitoral, quando se tratar de candidato a Presidente ou Vice-Presidente da República;

(...).

Art. 86 da CF: Admitida a acusação contra o Presidente da República, por dois terços da Câmara dos Deputados, será ele submetido a julgamento perante o Supremo Tribunal Federal, nas infrações penais comuns, ou perante o Senado Federal, nos crimes de responsabilidade

(...)

§ 4º O Presidente da República, na vigência de seu mandato, não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções.

Fundamentos e hermenêutica jurídica

Conforme a exposição legislativa pertinente que capitulamos, aplica-se a Lei da Ficha Limpa ao caso em tela. Por esta proíbem-se candidaturas de quem já fora condenado por jurisdição em órgão colegiado – 2ª instância. Assim, no caso de Lula, o ex-presidente teria que ser condenado na 1ª instância, e referida condenação restar reafirmada em 2ª instância, nestes termos uma primeira decisão colegiada.

Nesta senda ser réu nos termos da nossa legislação não configura fato impeditivo para a candidatura. O impedimento exsurge com o fato jurídico condenação colegiada, em 2º grau de jurisdição.

Passando adiante, é verdade que um réu não pode ocupar a linha sucessória da Presidência da República? Sim, assim entendeu o Supremo Tribunal Federal. Seguindo este limiar hermenêutico seria consequencial imaginar que o candidato a Presidência que restasse eleito por não existir ainda uma condenação em órgão colegiado, em 2ª instância, estaria inobstante impedido de exercer o cargo, e portanto, restaria afastado da Presidência da República pelo fato de ser réu, já que se não pode ocupar a linha sucessória da Presidência, com maior razão não poderia exercer o cargo de Presidente da República.

Colacionamos o art. 86, parágrafo, 4º da Constituição, não à toa. A decisão do Supremo que proíbe o do exercício de cargo de quem esteja na linha sucessória da Presidência da República não se aplicaria justamente ao Presidente da República, justamente porque a Constituição determina que um Presidente da República não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao mandato, na forma do art. 86, parágrafo 4º supra. Não falaríamos portanto em afastamento do presidente do cargo pelo fato de ser réu. Parece paradoxal, parece haver uma antinomia com o próprio sistema constitucional, porém é essa interpretação a que, pelo critério da especialidade, a que deve prevalecer.

A irrazoabilidade do sistema hermenêutico neste caso que ora abordamos não pára por aí. O mesmo parágrafo 4º ao proibir que o Presidente da República seja responsabilizado por atos estranhos ao exercício das suas funções faz com que processo em curso fique suspenso, paralisado, enquanto durar o seu mandato, até o momento da extinção do seu mandato.

No caminho da conclusão deste, assentamos que “Lula”, nos lindes do ordenamento posto, poderá sim ser candidato a Presidência da República mesmo sendo réu em diversos processos e agora condenado em 1ª instância. Assim, ainda que condenado em 1ª instância não haverá impeditivo para sua candidatura, impeditivo que só apareceria em caso de condenação em 2ª instância antes do fato jurídico eleição de “Lula”. Ainda, caso eleito por ainda não existir condenação em 2ª instância, os processos serão automaticamente suspensos até a extinção do seu mandado. Há uma completa blindagem da figura do Presidente da República por atos que sejam estranhos ao seu mandato em curso, há uma irresponsabilidade temporária – enquanto perdurar o mandato pelos atos ilícitos do passado, que advêm precipuamente do art. 86, parágrafo 4º em comento.

Conforme pudemos perceber, o parágrafo 4º do art. 86 da Constituição da República combinado com a Lei da Ficha Limpa, que exige minimamente uma condenação de 2ª instância – colegiada - permite que o maior cargo eletivo do país possa ser ocupado e exercido por quem seja réu (com denúncia proposta pelo MP e aceita pelo magistrado competente) ou mesmo condenado em 1ª instância (a partir de decisão jurisdicional já exauriente, embora passível de recurso – sem trânsito em julgado).

Assim, no caso “Lula”, cogitar-se-ia de três possibilidades que poderiam causar sua inelegibilidade ou o seu impedimento para o exercício da presidência:

1. Uma decisão condenatória em 2ª instância o impediria de concorrer a Presidência da República – a competência para os processos vindos de Curitiba é do TRF da 4ª Região, sem prazo para ser pautado costuma se alongar por uma média de 11 meses - improvável causa de inexigibilidade pela ausência de tempo hábil, quando conjecturamos com a possibilidade de conveniente pedido de vistas, o que atrasaria ainda mais o termo de um acórdão que promoveria a conseqüência da inelegibilidade para o pleito eleitoral de 2018.

2. A aprovação de uma emenda constitucional antes do pleito eleitoral de 2018, que modificasse o parágrafo 4º do art. 86 da Constituição Federal, que permitisse a continuidade do processo contra o Presidente da República (hoje a eleição acarreta a suspensão) e o afastamento de quem já fosse, por exemplo, condenado em 1ª instância, quando já há um juízo exauriente, do exercício da Presidência da República. Esta hipótese poderia revelar-se casuística e inconstitucional caso utilizada já para as eleições de 2018.

3. Uma alteração na Lei da ficha Limpa, quando não se exigiria mais uma decisão colegiada, bastando, como no item supra, decisão condenatória em 1ª instância, e que já restasse aplicada ao pleito presidencial de 2018. Da mesma forma que a hipótese (2) quando ao casuísmo.

De lege ferenda, importante levarmos em conta que ocupar para ocupar cargos públicos, e com maior razão os cargos políticos Presidente da Câmara do Senado Federal, como o de Presidente da República indispensável deveria ser o critério da moralidade. Assim a comprovação de reputação ilibada como se infere como um dos requisitos para tornar-se ministro do Supremo Tribunal Federal.

A defesa de “Lula” trabalha corretamente no interesse do seu cliente e assim trabalhará até ultimadas as eleições de 2018. O foco é a maior morosidade possível nos processos onde “Lula” figure como réu para que não alcance seu desiderato final em 2ª instância, utilizando de todos os expedientes recursais, de requerimentos de dilações de prazos, de sucessivos pedidos de suspensão e anulação de seus processos. Princípios como o da celeridade processual e da efetividade do processo são inimagináveis para o bem da candidatura presidencial de Lula.

27 Comentários

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Maravilha.
Devemos então torcer para que a quadrilha numero um permaneça no poder e assim teremos mais tempo para impedir que a quadrilha de numero dois volte ao poder, o que seria mais trágico ainda para o país.
Ou entendi tudo errado?
Como ter orgulho de uma constituição mutante que coloca todo um país em armadilhas como esta?
Talvez o ponto mais dolorido fica no fato de que, depois de tantos desmandos, ainda existe uma parcela significativa da população, que reelegeria Lula. Pobre Brasil. continuar lendo

O problema não está exatamente na Constituição, mas nas pessoas que tem o poder para interpretá-la. Nosso déficit é humano. Abraço José Roberto! continuar lendo

Mas quem permite as interpretações da forma como acontecem? Acho que depois de tantas lições precisamos aprender alguma coisa. Isso é urgente. continuar lendo

José Roberto a "quadrilha numero um" parece que conseguiu "escapar" por ora, durante a votação dos "prós e os contra". E ainda vem a Folha divulgando insistentes "pesquisas" dando ainda mais "ibope" para a quadrilha numero dois, e eles já estão em plena campanha por todo o País. Isso é igual cobra, quando se dá uma pancada no meio dela para imobilizar a peçonhenta; se não der mais uma pancada na cabeça, ela continua perigosa e ainda pode picar... continuar lendo

Correto José Roberto! continuar lendo

Lula deveria ser derrotado nas urnas, não sendo eleito nunca mais.

Esperar que a justiça impeça sua candidatura reflete o atraso moral, ético, social e educacional que somos.

Sempre esperamos que os outros (justiça) resolvam os nossos problemas (incapacidade de escolher representantes políticos).

Infelizmente Lula não será preso e ainda será eleito. As instituições sérias se preparem!

Somos o retrato do atraso! continuar lendo

Infelizmente, com o andar da carruagem, isso não ocorrerá.
Ele tem um grande poder de persuasão, consegue manipular a massa com seus programas populistas e se vitimizando com todas as falcatruas praticadas.
O povo brasileiro ainda não sabe escolher com responsabilidade seus representantes.
Preparemos para mais um desgoverno. continuar lendo

Nãp defendo o PT e nem Lula mas é estarrecedor o que ocorre com os Tucanos principalmente.Será que este poder judiciário principalemnte quando assunto é prisão somente pessoas ligadas ao T? Lula é bandido, mas temos muito mais sendo reservados até chegar a maldita prescrição.Triste pais governada por bandoidos do crime organizado sendo soltos e zombando da cara da sociedade. continuar lendo

Concordo plenamente! Aliás, sugiro a esse Congresso, de longe o pior e mais delinquente da história desse país, que aprovassem uma alteração no artigo 26 do CP, incluindo esta nova categoria de inimputáveis, tucanos, kkk. continuar lendo

Realmente gostaria de entender esse mito. A maioria das pessoas que foram presas não são políticas. Dos políticos presos, temos até agora: André Vargas (PT-PR), Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Gim Argello (PTB-DF), João Claúdio Genu (PP), Luis Argolo (SD-BA), Pedro Correa (PP-PE), Sérgio Cabral (PMDB-RJ). Ou seja, de 7 políticos, apenas 1 do PT foi preso. Se verificar os partidos, são todos relacionados com o governo. Me pergunto, se é possível fazer corrupção sem tráfico de influência e poder político. Ou seja, como o PSDB poderia estar na corrupção do PT se ele era oposição?. O caso do Aécio, não é muito diferente do Lula e do Dirceu: processos morosos em que o político é beneficiado. continuar lendo

Nem necessito de ler o extenso e bem elaborado texto do ilustre Professor Sarmento, porque acompanho essa "novela jurídica" a muito tempo; foi condenado, não vai preso, não constará na tal "Ficha Suja", vai ser candidato em 2018, e se "manipular", se elege e "recomeça tudo novamente" e na "caça as bruxas" salve-se quem puder. Cito como ex. Rio Claro,sp, onde durante uma campanha eleitoral, eu e minha esposa fomos assessores (voluntários) de um amigo candidato a prefeito daquela cidade. Eram 3 concorrentes, e um deles estava preso. Conseguiu ser "liberado" para fazer sua campanha, e se elegeu. O meu que era um ferrenho adversário dele, ficou em terceiro lugar. Omito nomes e datas, por questões óbvias, mas não será difícil saber, se alguém daqui for Rioclarense. continuar lendo

A política mal exercitada é permissiva, blinda e privilegia os protagonistas do Poder. De fato o Direito por diversos momentos acaba acabrunhado e se percebe inefetivo diante de um sistema ordenado de emponderados desviados maculadores de um desejável Estado Democrático de Direito. Grande abraço! LS. continuar lendo