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21 de Setembro de 2018

Um passado em cinzas de um país sem história e fundamentos para mudanças

Leonardo Sarmento, Professor de Direito do Ensino Superior
Publicado por Leonardo Sarmento
há 17 dias

Em 2013 o Mercado Modelo de Porto Alegre, em 2015 a Estação da Luz em São Paulo, em 2018 o encantador Paço Imperial de São Cristóvão no Rio de Janeiro.

E assim uma história de muitas lutas e poucas glórias vem esmaecendo diante de um povo já em grande porção despido de cultura e ignorante de sua história.

Uma edificação que vai muito além da sua suntuosidade arquitetônica, mas que atravessou o interregno do Império, da República Velha, o Governo Vargas, duas ditaduras. Que perseverou até o contemplar da ânsia por redemocratização, e vem a sucumbir em pleno Estado Democrático de Direito que navega em um de seus mais tristes momentos de ausência lucidez e profunda desesperança. Justamente no período que a democracia parece mais combalida e intimidada por um poder atroz, egocêntrico e desencantado. Não teria chegado a hora de enfrentarmos a mentira que chamamos de democracia para de fato construirmos uma democracia de verdade?

Sinais catastróficos por vezes demarcam momentos, viradas, mas será que o povo brasileiro estaria preparado para proposição de mudanças com um mínimo de discernimento exegético? Não estou nada esperançoso.

Cada vez mais um povo sem identidade onde a história cada vez poderá ser menos comprovada e demonstrada para as futuras gerações. Cada vez mais nos parece que estamos fadados não só a pobreza econômica, mas a cultural e a humana à passos de Guepardo, voos de gavião-peregrino.

Se não tínhamos uma história tão distintiva e grandiosa para contar como outras nações, tínhamos a nossa história e dela necessitaríamos para nos compreendermos, passo inicial para qualquer alteração de rumo e implemento de uma nova história que um dia poderia ser contada, quiçá de mais glórias. Lamentavelmente um país sem história, sem identidade, é um país incapaz de encarnar um processo civilizatório sustentável, uma Nação que tão apenas pensa egoisticamente na mais-valia do seu presente em benefício de poucos, e renega a luta dos seus precursores que escreveram as nossas histórias às cinzas do esquecimento, não poderá acreditar em um futuro de luz e esperança para os seus filhos.

Assim que segue nossa sina em acreditar em promessas e mentiras por nossa mais profunda incapacidade de modificar de forma sustentada uma história que cada vez mais desconhecemos por incapacidade e inoperância de muitos e incompetência egoística devastadora de poucos que nos gestionam e sugestionam, nos enganam.

Recuperar o patrimônio perdido? Ledo engano. Trata-se de um patrimônio irrecuperável hoje traduzido por cinzas. Sua reconstrução se implementada não terá o DNA da nossa história absolutamente perdida e irrecuperável, tão apenas mais um amontoado de recursos públicos advindos que serão superfaturados de um povo hipossuficiente que luta contra suas misérias contra a indignidade de um dia seguinte de incertezas de onde se dará o fim, se tomado pela fome, sucumbido em uma fila hospitalar ou aniquilado por um tiro direcionado ou perdido.

12 Comentários

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Triste demais o que aconteceu, resultado da negligência e do descaso da UFRJ e do governo federal que estava cortando recursos do local desde 2015, aproximadamente.

Porém, não passou despercebida a atitude de algumas figuras conhecidas, verdadeiros abutres oportunistas. Assim como no caso Marielle, os mesmos de sempre politizaram o evento e buscaram votos em cima do ocorrido. Um absurdo.

Lindbergh Farias, do PT, twittou que isso era resultado da PEC do teto de gastos, aprovada no governo Temer.
Gleisi Hoffman, do PT, disse o mesmo, culpando Temer e o "golpe".
Manuela Dávila, do PC do B, além de culpar Temer e a PEC do teto de gastos, pediu votos com a tragédia, nos candidatos que "irão revogar a PEC do teto de gastos". Após a repercussão dessa atitude nojenta, apagou o tweet, mas há prints na internet.
Guilherme Boulos, do PSOL, partido cujo administrador do museu é filiado, fundador no RJ e certamente terá muitas explicações a dar à nação brasileira de onde foram parar os 21 milhões que foram destinados ao Museu para sua reestruturação, atacou Temer o chamando de criminoso e o culpando pelo incêndio.

Nem a imprensa passou em branco. O colunista Ricardo Noblat, numa das matérias mais repugnantes que vi ontem, pediu que chamassem Bolsonaro para "apagar o fogo na bala".

Que país que eu fui nascer. Não sei se sinto mais ódio ou nojo, é difícil dizer. Que povo mais medíocre. continuar lendo

Sua indignação fundamentada é a mesma de parcela dos cidadãos conscientes deste país, uma pequena e quase inexpressiva minoria. Lamentavelmente a indignação do povo brasileiro é com pífios fundamentos pobremente utilizados, e por isso com pouca força representativa. A nossa ideia foi não procurar responsabilizar A ou B, acho que fomos claros pelo que escrevemos. O lamento foi pela Nação que compartilhamos. continuar lendo

Assino com você.
Meu sentimento foi esse: uma perda irreparável.
Saber que outros fatos iguais poderão acontecer a qualquer momento me deixa ainda mais apreensivo e descontente.
Não faltam exemplos, não falta conhecimento, tecnologia ou mesmo dinheiro.
Faltam ética, vontade política, cidadania e respeito.
A maioria do povo brasileiro não conseguirá entender o que e quanto perdemos.
Já sabemos de antemão o resultado das investigações, não é mesmo? continuar lendo

Dinheiro não falta, falta é prioridade no gasto dele. Para a oficina de siririca, ocorrida na USP, havia dinheiro público de sobra. Onde foram parar os 21 milhões destinados ao Museu, em junho deste ano? E os 24 milhões no primeiro semestre? continuar lendo

Sempre antenado e coerente, meu amigo. continuar lendo

Texano, nosso problema não é arrecadatório e nunca foi, mas sim de gastos astronômicos com a manutenção do poder constituído, com os incontáveis desvios que sofre o erário público utilizado a quilômetros de distância do interesse público, e da incompetência que guarda nossas figuras públicas profissionais da política... continuar lendo

Infelizmente existe método por trás de tudo, inclusive deste incêndio.
Destrua a história, a cultura, as raízes de um povo, aniquile as bases da estrutura social, como a família, a escola, a igreja e o caminho estará aplainado para a dominação absoluta. continuar lendo

Isso que citas, meu caro amigo Norberto Marcher, o "sinônimo" é: Comunismo. E, infelizmente, até por aqui têm alguns adeptos dessa "praga"... continuar lendo

Texano e José Roberto, estamos muito longe, de nos igualar a um país onde se preserva a qualquer custo, como o Japão, por ex., a nossa "memória". Minha esposa, como vereadora na época, eu e mais alguns amigos, tentamos preservar um antigo casarão centenário, em Itupeva-sp, mas não conseguimos. Assim como ex. Itupeva, agora no Rio de Janeiro, nossa história, está indo para o "esgoto". Sempre cito isto: não somos brasileiros "autênticos", somos uma miscigenação de raças, daí, a falta de interesse em preservar a memória do pais que tão bem acolheu e ainda acolhe até hoje (vide-venezuelanos, por ex), cidadãos de toda parte do mundo. SMJ, esta é a minha modesta opinião, com meus já idos 76 e "tra-la-la"... continuar lendo

Além disso falta claramente ao brasileiro a cultura capaz de fazer-nos entender a fundamentalidade de se preservar nossa história. O povo que não conhece sua história não a preserva por não compreender a sua representatividade para a construção de nosso futuro. continuar lendo